
Foram cerca de 60 metros, a uma altura de dois a três metros do chão, durante poucos segundos. Parece pouco para quem hoje embarca num avião que cruza o país em algumas horas, mas o voo do 14-Bis, em 23 de outubro de 1906, no campo de Bagatelle, em Paris, marcou uma virada. Diante de uma comissão do Aéro-Club de France e de uma plateia de curiosos, o brasileiro Alberto Santos-Dumont fez um aparelho mais pesado que o ar decolar por meios próprios, voar e pousar. Em 2026, o feito completa 120 anos.
Nascido em Minas Gerais em 1873, filho de um engenheiro que enriqueceu com o café, Santos-Dumont mudou-se para Paris ainda jovem. A cidade era o centro da efervescência técnica e científica da época, e foi lá que ele se dedicou aos balões e aos dirigíveis.
Antes do 14-Bis, ele já era famoso. Em 1901, contornou a Torre Eiffel com um dirigível e conquistou um prêmio que o tornou celebridade na França. Circulava pela cidade com seus aparelhos e se tornou figura conhecida dos jornais. A passagem do dirigível para o avião foi um passo natural para quem buscava dominar o ar.
O 14-Bis tinha aparência estranha aos olhos de hoje. As asas, montadas em células que lembravam pipas, ficavam atrás, e o leme ia na frente. O piloto viajava de pé, num cesto. O motor, um Antoinette, girava uma hélice na parte traseira.
Os testes começaram meses antes. Em 23 de outubro de 1906, Santos-Dumont conseguiu o voo de cerca de 60 metros, que lhe deu o Prêmio Archdeacon, oferecido ao primeiro voo com mais de 25 metros. O resultado foi registrado e homologado pelo Aéro-Club de France, o que deu ao evento caráter oficial.
Poucas semanas depois, em 12 de novembro de 1906, veio um resultado ainda mais expressivo: 220 metros em 21,5 segundos, o que garantiu a ele o prêmio do Aéro-Club de France para o primeiro voo acima de 100 metros.
O debate sobre quem voou primeiro acompanha a história da aviação. Os irmãos Wright, nos Estados Unidos, relataram voos a partir de 1903, feitos com pouca plateia e com o auxílio de um sistema de lançamento em algumas etapas. No Brasil e em parte da Europa, o 14-Bis é reconhecido como o primeiro avião a decolar por meios próprios diante de uma comissão oficial e do público. A discussão continua viva, mas não diminui a importância de nenhum dos pioneiros.
Depois do 14-Bis, Santos-Dumont desenvolveu o Demoiselle, um avião pequeno e leve, considerado precursor dos ultraleves. Ele não patenteou o projeto e permitiu que os desenhos fossem reproduzidos, contribuindo para a difusão da aviação.
A linha que liga 1906 à aviação comercial atual passa por várias etapas. Nas décadas seguintes, a aviação avançou rapidamente, impulsionada pelas duas guerras mundiais. Os primeiros serviços regulares de passageiros surgiram ainda nos anos 1910 e 1920. Com o tempo, vieram os aviões de cabine pressurizada, os motores a jato e as grandes rotas intercontinentais.
Hoje, a viagem aérea é parte essencial do mundo dos negócios. Uma reunião em outra capital, que antes exigia dias de estrada ou de trem, cabe numa ida e volta no mesmo dia. Cadeias produtivas se espalharam pelo mundo, e o encontro presencial entre parceiros comerciais ficou ao alcance de mais empresas.
Nada disso acontece de um salto, mas cada etapa depende da anterior. O voo curto em Bagatelle provou que a ideia era possível, e a partir dele engenheiros e pilotos passaram a buscar distâncias maiores, mais segurança e mais passageiros.
Onde foi o voo do 14-Bis? No campo de Bagatelle, em Paris, em 23 de outubro de 1906, diante de uma comissão do Aéro-Club de France e de uma plateia de espectadores.
Qual foi a distância do primeiro voo oficial do 14-Bis? Cerca de 60 metros, a uma altura de dois a três metros. Em 12 de novembro do mesmo ano, Santos-Dumont voou 220 metros em 21,5 segundos.
O que foi o Demoiselle? Foi um avião pequeno e leve desenvolvido por Santos-Dumont depois do 14-Bis. É considerado precursor dos ultraleves, e ele liberou os desenhos para que outros pudessem reproduzi-lo.